Friday, October 06, 2006

Contrastes e paradoxos (aos olhos de uma brasileira...)


Chegamos ao musseki para buscar a namorada de um amigo. Dirigíamos um Toyota Prado, um daqueles jipes super luxuosos. Ao descer do carro e olhar ao redor, percebi BMWs, Volvos, Land Rovers, todos estacionados em frente aos portões enferrujados da vizinhança.

Essa paisagem me pareceu estranha no início, mas depois percebi que por aqui as coisas são assim: não importa muito viver bem, confortavelmente; o negócio é ter um carrão. Por todos os lados da cidade, esse luxo dos automóveis contrasta com a sujeira das ruas sem asfalto e com as condições precárias das residências. A primeira de várias coisas estranhas, pelo menos dentro da lógica a que estou acostumada, encontradas em Angola.


Os edifícios daqui, em sua maioria do tempo colonial (antes de 1975), são sujos, cheios de ratos, sem luz nas escadas e nas áreas comuns, e todos com os elevadores quebrados. Já os apartamentos, são até bem arrumados e com televisão por assinatura, sempre. E as pessoas que moram nessas condições chegam a gastar, toda vez que vão a bares ou restaurantes, perto de 200 dólares.

Vive-se sem água durante três dias seguidos tranqüilamente, mas o aparelho de ar condicionado é imprescindível. A energia elétrica da rede falta pelo menos uma duas vezes na semana e isso não parece ter muita importância. Mas quando a televisão sai do ar na hora da novela... grande problema!

E mais ou menos assim é a vida de um país em reconstrução.

Outro povo, outras prioridades.

(Musseki: favela de Luanda)

Thursday, September 28, 2006

Televisão, liberdade de expressão e a guerra

Angola só tem um canal de televisão aberta, a Televisão Pública de Angola (TPA). Um canal estatal. Ou do governo? Ou público? Pois é, por aqui, todas essas palavras se confundem. São praticamente sinônimos. O Estado angolano é o próprio governo do partido MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola). E tudo que vem do Estado, ou melhor, do governo, é público. Aquela velha história de governo forte, Estado fraco. Bem confuso...

Dentro deste contexto, a televisão não aparece como um instrumento democrático. Aliás, que democracia? Com o mesmo presidente no poder há quase 30 anos, parece-me estranho falar em democracia. Mas assim é definido o Estado angolano. Bem, de volta à TV, ela é praticamente um veículo de propaganda do governo e, por conseqüência, do MPLA. Sua autonomia é próxima de zero. Tem seus diretores definidos pelo Ministério da Comunicação Social e todos devem ser do partido.

Mesmo assim, com pessoas totalmente alinhadas cuidando da emissora, as matérias jornalísticas e a programação sofrem influência direta do governo. Vira e mexe surge um telefonema ordenando a exibição de determinada reportagem ou definindo a abordagem de certo assunto. Isso sem contar a auto-censura dos próprios jornalistas. Em conversa com o chefe de redação do telejornal, pude perceber que a história da guerra ainda está muito fresca na cabeça de todos os angolanos (afinal, ela só terminou há quatro anos) e eles preferem, então, seguir a maré do que ser engolidos por ela...

Sempre a guerra. Explica muito do comportamento das pessoas aqui em Angola. Parece que a paz se tornou o único valor fundamental para o ser humano, deixando de lado todos os outros, inclusive a liberdade de expressão e de acesso à informação. Posso até não concordar, mas não posso dizer que não entendo. Talvez, se tivesse vivido toda a minha vida em meio a uma guerra, compreenderia um pouco mais como pensam os angolanos...

Monday, September 25, 2006

Outros costumes e o telemóvel

Realmente só se é possível entender os costumes de um povo baseando-se em referências que pertencem ao mesmo contexto em que surgiram tais costumes. Como chegar a um lugar ao qual se vai pela primeira vez sem conhecer o endereço? Como saber quando chegar a um encontro se os únicos advérbios de tempo usados são ‘logo’ ou ‘daqui a pouco’?

Nos primeiros dias em Luanda, o nervosismo tomou conta de mim algumas vezes. "Como assim não tem endereço? Mas a que horas devo chegar? Às três, às cinco?" E as respostas sempre as mesmas: "Ali perto daquele edifício... Logo mais à tarde..." Não acreditava que as coisas podiam funcionar assim. Mas, no final das contas, dá tudo certo! Chega-se ao lugar desejado, à hora conveniente.

Agora já estou escolada. Nem me abalo mais. Quando alguém diz que vai se encontrar comigo, já nem espero. Não mudo minha programação. Só deixo o "telemóvel" ligado. Aliás, santo telemóvel! Aqui em Angola, não se vive sem. Telefones fixos, só em empresas, repartições públicas ou estabelecimentos comerciais. Em residências, quase não se vê.

Pois bem, o negócio é confiar nos africanos, deixar o telemóvel sempre ligado e não se desesperar com coisas secundárias, como a pontualidade. Acreditem. Dá certo!

Friday, September 22, 2006

“O tio me fez malandro”

Hoje a história é triste. Sobre uma reportagem que acompanhei de uma menina que foi violentada sexualmente. Mas, como por aqui o acesso a dados estatísticos é difícil, escreverei mais sobre as minhas impressões do que sobre a real situação da violência contra crianças em Angola.

O caso aconteceu em um bairro da periferia de Luanda. Um homem de 33 anos "fez malandro" em sua vizinha, uma "miúda" de oito anos. Fomos à delegacia entrevistar o acusado (que já estava preso), e depois à casa onde morava a menina. Impressionou-me logo de cara a situação que encontrei. O preso trazido para a rua, sem algemas, e a entrevista (um tanto sensacionalista) foi gravada ali mesmo. Várias pessoas aglomeradas ao redor, a xingar e indignar-se.

Apenas a família parecia não estar muito revoltada. O tio, com quem a menina morava, assistia à entrevista calmamente... Não entendi muito bem aquilo. Tentei me colocar em seu lugar e pensei que a minha atitude seria completamente diferente... Mas também, ao mesmo tempo, quem disse que existe uma fórmula padrão para se expressar sofrimento ou revolta?

Esse tem sido um dos grandes aprendizados dessa viagem. Não adianta muito querer julgar as pessoas baseado nos referenciais da nossa cultura de origem. Talvez, para um povo que viveu em guerra durante mais de 30 anos, a forma de lidar com as dores seja diferente da nossa... Percebi que tudo depende do contexto em que se está inserido. E isso me fez mais tolerante e compreensiva.

Voltando à menina, ainda hoje, encontra-se no hospital a ter hemorragias. Mas prefiro deixá-los com uma foto mais alegre; do sorriso das crianças da periferia angolana que, no momento que vêem uma câmera, juntam-se todas e fazem poses para serem fotografadas!

Wednesday, September 20, 2006

A comida e a língua

Muamba, funge, ginguba, mufete, kisaca, kalulu. Palavras estranhas para nós, brasileiros, mas muito conhecidas pelos angolanos. São todos nomes de pratos da culinária típica daqui. Ainda não descobri se tem algum significado em português, mas são vocábulos das línguas nacionais faladas em Angola: o kimbundo, umbundo, fiote, cokwe, ngangela, kwanyama, nyaneca, para citar as mais usadas.

São idiomas que pertencem à oralidade e não apresentam uma escrita formal. É comum encontrarmos a mesma palavra grafada de formas diversas (a rua onde estou vivendo, por exemplo, chama-se Rainha Ginga, ou Jinga...). Existe um esforço do governo, por meio do Ministério da Cultura e da Educação, para impedir que essas línguas nativas desapareçam e sejam engolidas pelo português. Até o fim de 2006, pretende-se que seja instituído seu ensino nas escolas públicas.

Agora a comida. Ontem experimentei meu primeiro prato da culinária angolana. Muamba e funge. O primeiro um frango cozido com molho de ginguba (amendoim), o segundo uma espécie de polenta, só que feita com uma fuba (farinha) branca e sem sal. Muito bom! Especialmente a tal da muamba. Já o outro também é gostoso, mas confesso que prefiro a nossa polenta...

Ainda falta provar o mufete, a kisaca, o feijão de oléo de palma, o kalulu... Esses dois últimos muito semelhantes a iguarias da comida baiana. Kalulu, feito com quiabo, é o famoso caruru; e o óleo aí citado nada mais é do que o dendê. Mufete é algum prato feito com peixe que ainda não sei ao certo e a kisaca uma folha... Só comendo pra descobrir...

Sunday, September 17, 2006

Agostinho Neto e um pouco de história


Hoje, 17 de setembro, é feriado em Angola. Dia do herói nacional. Quando se relembra a data da morte de Agostinho Neto, primeiro presidente do país, depois da independência de Portugal.

Agostinho Neto foi um dos fundadores do MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola) e participou ativamente da luta pela independência do país. Apesar de já ter falecido há 27 anos, ainda é chamado pelos angolanos de presidente.

Angola foi descoberta pelos portugueses em 1482. Antes disso, estavam aqui várias tribos chefiadas pelo rei N’gola. A independência só foi conquistada em novembro de 1975 e, a partir desta data, o país mergulhou em uma guerra civil da qual só saiu em 2002. De um lado, o MPLA, apoiado pela União Soviética; e do outro a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola), liderada por Jonas Savimbi e com a simpatia dos Estados Unidos.

Em 1992, uma trégua foi acordada para a realização de eleições presidenciais e legislativas. Tendo ganhado (por pouca diferença de votos, é verdade) o candidato do MPLA, José Eduardo dos Santos, Jonas Savimbi retomou a guerra que continuou até a sua morte em 2002 (não se sabe ao certo se foi assassinado ou se suicidou-se).

Ainda hoje o país é presidido por José Eduardo dos Santos, eleito em 92, mas que já estava no poder desde a morte de Agostinho Neto em 1979. Novas eleições acontecerão no ano que vem (dependendo da boa vontade dos atuais governantes em realizarem o registro eleitoral do povo angolano e em proporcionar as condições necessárias para a votação...).


À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente
(trecho do poema Havemos de Voltar, de Agostinho Neto)

Friday, September 15, 2006

As parabólicas

Para todos os lados podemos enxergar as antenas. Vim a Angola fazer um trabalho sobre a televisão daqui, a TPA, e descobri que todos preferem assistir a Globo e a Record!

Bastante curioso... Uma assinatura de televisão custa por volta de 150 dólares, para um pacote que dura três meses. A maior parte da população não pode pagar este preço. Mas todos tem acesso `as novelas, e aos programas de entretenimento brasileiros porque as televisões estão sintonizadas na Globo em restaurantes, hospitais e até em repartições públicas!

A influência é bem grande. Muitas de nossas gírias são entendidas aqui sem dificuldade. As roupas e acessórios das personagens globais podem ser encontrados nas ruas de Luanda.

Até achei tudo isso um pouco agressivo e imperialista, mas confesso que, em um momento de angústia, muito me confortou poder ter acesso a algo do Brasil. Mesmo que este algo sejam as novelas da Globo…